setembro 02, 2006

Maria-voa!

- Um metro, cinquenta e um e meio. 
- E meio?... Você faz questão deste “meio”?... Por quê?... Não quer assumir que é baixinha?...
- Eu não!... É só questão de justiça. Não me incomoda, não... Se eu não fosse pequena, não voava...
- Voava?... Ah, você voa?... Já voou... Por acaso, você é bruxa?...
- Já voei... Podem não acreditar... Foi num jogo de futebol, no Maracanã. Jogo da seleção. Muita gente... Mais do que nos jogos de clube que eu tinha ido. Fui com um antigo namorado. Na rampa, um congestionamento de gente... Alguma passagem, parece que estava fechada, sei lá... Foi apertando... Meu namorado atrás de mim, um amigo nosso à frente. É, tem muita mão-boba nessas horas... Devagarinho, a multidão se moveu. Começou uma espécie de uivo, baixinho. O pessoal zoando... Crescia o som junto com o movimento. Quando vi, estava sendo transportada pela massa, em direção ao acesso à arquibancada. E não conseguia botar os pés no chão!... Tentava, mas não conseguia... Só aterrizei na arquibancada, quando já se via o campo lá embaixo. Esse tempo todo, estava voando... Foi incrível... Alguma de vocês, por acaso, já voou?...
- Maria, que história mais boba...

- É, pode ser... Mas, acontece que eu voei... Vocês, que são grandes, não...

Um comentário:

MadalenaBarranco disse...

Olá Aguinaldo, muito prazer! Parabéns pela merecida vitória de seu conto "Grá Decisão(...)", onde o tempo é uma ilusão que amalgama os cinco aos cinquenta anos de idade; e a bola continua rolando e misturando os tons das torcidas. Obrigada por me enviar o link dos seus contos - eu estava mesmo com vontade de ler o conto vencedor! Ah, e quanto à "Maria-voa!", tenho a dizer que fiquei encantada com a capacidade que as letras têm, quando bem aéreas, de fazer o leitor voar. Abraços e muito sucesso para você! Quando a Literatura vence, todos ganhamos prêmios. Madalena Barranco